2. ENTREVISTA 28.11.12

THOMAS SZEG - "MUITAS CIRURGIAS BARITRICAS SO FEITAS SEM NECESSIDADE"

Pioneiro na realizao das operaes de estmago para emagrecer, o cirurgio critica mdicos e pacientes que burlam as regras e indica os cuidados a serem tomados
por Mnica Tarantino 

ALERTA - Szeg afirma que os pacientes devem fazer terapia antes de se submeterem ao procedimento
 
O mdico Thomas Szeg, 58 anos, nascido na Hungria e naturalizado brasileiro, gosta de estar na vanguarda da medicina. Ele  responsvel pela realizao da primeira cirurgia minimamente invasiva feita no Brasil para retirar a vescula, por laparoscopia, em 1990. Mais tarde, adaptou o mtodo que usa pequenas incises, com pinas e microcmeras, s operaes indicadas para a perda de peso: as cirurgias baritricas e metablicas. Aps deixar a presidncia da Sociedade Brasileira de Cirurgia Baritrica e Metablica, que ocupou por dois anos, nesta entrevista Szeg revela os pontos fortes e os problemas dessa operao no Pas. Somos lderes nesse tipo de cirurgia, mas infelizmente h servios que precisam entrar nos eixos, diz.

"Existem critrios claros para submeter algum  operao. O mdico precisa saber avaliar cada paciente com cuidado"

"Tive uma paciente que operou e o marido me disse que no consegue mais pagar as contas dela. Virou uma compradora compulsiva"

Isto - Mais de 30 mil pessoas se submetem anualmente no Brasil s cirurgias para perda de peso. Porm, 10% desses indivduos voltam a engordar. Por qu?  

Thomas Szeg - Na maior parte dos casos, so pacientes que no tiveram o acompanhamento correto antes e depois da cirurgia. Pode ser que a pessoa tenha faltado s consultas de avaliao ou foi operada em uma clnica que no trabalha com psiclogos, psiquiatras, nutricionistas e fisioterapeutas, como manda a lei brasileira. Outro fator que colabora para o resultado negativo  a operao ter sido mal indicada. E devemos considerar tambm que qualquer um ganha peso se desandar a comer amendoim, queijo e beber usque. Isso tambm pode acontecer. 

Isto -  comum haver erros na indicao? 

Thomas Szeg - Apesar de existirem critrios claros para submeter algum  operao, muitas cirurgias baritricas so feitas sem necessidade. Se vai ao meu consultrio uma menina de 20 anos que sempre foi magra, chegou recentemente aos 98 quilos porque comeu demais e no tem familiares obesos, no opero. Muito provavelmente emagreceria com exerccios e correo dos hbitos alimentares. Ela no  candidata  cirurgia, mas h quem aceite oper-la. Isso no deveria acontecer. Porm, ela seria candidata a uma das tcnicas de cirurgia baritrica se fosse gordinha desde a adolescncia, se tivesse feito vrios tratamentos e se os pais fossem obesos. Para ela, nessas condies, a operao traria benefcios. O mdico precisa saber avaliar cada paciente com cuidado.  

Isto - H mdicos que pedem aos pacientes para engordar uns quatro ou cinco quilos para que atinjam o peso necessrio para fazer a cirurgia? 

Thomas Szeg - H doutores e pacientes que se valem de expedientes impressionantes para burlar as regras. Outro dia atendi um indivduo que trouxe uma autorizao do convnio para a cirurgia, mas quando o pesei vi que no tinha IMC (ndice de Massa Corporal) necessrio e no preenchia os critrios mnimos estabelecidos. Ele tambm no tinha doenas associadas ao excesso de peso, como hipertenso ou diabetes. Estranhei que tivesse passado na percia do plano de sade e perguntei como isso aconteceu. Contou que, na hora de se pesar, colocou tornozeleiras por baixo da cala para aumentar o peso. Mandei-o embora porque achei que seria fcil para esse paciente me enganar tambm. Sugeri terapia para depois fazer uma nova avaliao. 

Isto - Essa pessoa encontrar quem faa a sua cirurgia?

Thomas Szeg - Infelizmente. Mas os planos de sade comeam a se defender desse tipo de expediente. Agora, antes de autorizarem as cirurgias, esto pedindo aos pacientes para apresentar uma curva de peso do passado.  um documento no qual um clnico que atendeu o doente nos ltimos cinco anos informa o histrico do peso.  

Isto -  possvel aumentar a margem de sucesso de uma cirurgia baritrica? 

Thomas Szeg - Para isso, precisamos nos basear nas estatsticas. O que sabemos  que essa cirurgia d resultados muito bons para os obesos, aqueles com IMC acima de 40, que j fizeram tratamentos e esto em condies psicolgicas de fazer a operao. Tambm sai ganhando quem est com IMC entre 35 e 40 e tem doenas associadas ou pioradas pela obesidade, como diabetes, refluxo gastroesofgico, problemas nas gorduras do sangue, lombalgias e apneia do sono. Como tratar a obesidade tem ao positiva sobre essas alteraes, esperamos que o benefcio seja maior do que o risco inerente a qualquer cirurgia. 

Isto - Quais so os critrios para as cirurgias em diabticos tipo 2?

Thomas Szeg - Se a pessoa  obesa e diabtica, deve ser operada e certamente vai se beneficiar. Em 85% a 90% dos casos, antes de sair do hospital esses pacientes j no precisam mais de medicaes como a insulina ou tomam muito menos remdios. Porm, existe uma grande discusso internacional, atualmente, se diabticos tipo 2 no obesos, com IMC inferior a 35, devem ser operados. Estamos constatando que o organismo de obesos com diabetes tipo 2 reage de forma diferente da dos magros com a mesma doena. Por enquanto, consideramos que pessoas com sobrepeso ou magras e diabticas tipo 2 no devem ser operadas. 

Isto - Quais so os mtodos aprovados de operao baritrica?  

Thomas Szeg - H quatro tcnicas regulamentadas no Brasil. A considerada mais segura  o Bypass gstrico, que divide o estmago. Outra  a banda gstrica. O terceiro tipo so as cirurgias que dividem o estmago e o intestino em dois longos tubos. A quarta consiste na retirada de uma parcela do estmago. 

Isto - Acredita que existe uma banalizao das cirurgias baritricas?

Thomas Szeg - No se pode dizer isso. Somos um pas visto como referncia internacional em avanos nesse tipo de operao e em nmero de cirurgias. Mas existem pessoas que se dedicam a burlar as regras no Brasil. Por isso, mdico e paciente devem pensar muito bem para no fazerem asneira e optarem por uma cirurgia sem que ela seja realmente necessria. Ela deve ser a ltima opo para o paciente. 

Isto - O sr. faz quantas operaes por ano? 

Thomas Szeg - Fao uma mdia de 20 a 25 pacientes por ms. Minha clnica  pequena, no atendo convnios e fao questo de operar pessoalmente o meu paciente. Ele contratou a mim, olhou para mim no consultrio. Conheo outras clnicas em que as equipes de cirurgies fazem 150 casos por ms.  

Isto - O sr. avalia o papel da compulso alimentar na hora de decidir se o paciente deve ser operado? 

Thomas Szeg - Alguns gordos so compulsivos, outros no. A obesidade  uma doena definida como aumento de gordura corprea. Mas no  verdade: ela  uma doena muito complexa. Trata-se do acmulo de gordura corprea, aumento da ansiedade, da compulsividade, imediatismo, certo grau de depresso. H alteraes culturais e emocionais. Gosto de dar o exemplo do gordo e do magro que saem para comprar um carro. O gordo volta de tarde com o carro, sem placa, sem documento e no tem problemas com isso. O magro foi a dez concessionrias e volta para casa com uma planilha para escolher o carro na semana seguinte. Quando pergunto ao obeso quando vamos operar, ele responde: ontem. A doena no est no estomago. Ela est no metabolismo, na cultura, na cabea, no comportamento. Preciso tratar esse paciente observando essa abrangncia. 

Isto - Como deve ser a avaliao antes da cirurgia?

Thomas Szeg - O obeso precisa ir para a terapia antes da operao e ser avaliado pelo terapeuta para entender o papel da compulso, se tem depresso ou tendncia a se deprimir depois da cirurgia. No meu consultrio, s opera quem passar por esse estgio.

Isto - E como  a prtica brasileira?  

Thomas Szeg - Tem gente que opera sem essas consultas com psiclogo, mas no deve. Isso est fora da lei e do padro de segurana. 

Isto - Quanto tempo dura a terapia? 

Thomas Szeg - Duas ou trs sesses antes e depois o quanto for preciso.  

Isto - H pessoas que aps a cirurgia passam a beber demais, comprar demais. Por que isso ocorre? 

Thomas Szeg - Tive vrios casos de pessoas que passam a apresentar comportamentos exagerados. Dizem que quem opera vira alcolatra, mas h pesquisas mostrando que isso no  verdade. A pessoa no vira alcolatra. Ela j bebia, mas ningum percebia. Agora que come pouco, chama a ateno a bebida. 

Isto - A pessoa transfere a fonte de prazer para outras coisas? 

Thomas Szeg - Isso no est claro. Pode ocorrer, mas no  a regra. Porm, muita coisa que estava sublimada aparece. Tive uma paciente que operou e o marido me disse que no consegue mais pagar as contas dela, virou uma compradora compulsiva. Mas ela j era assim, s que no saa de casa porque no conseguia andar. Agora pode e vai s compras. Houve tambm uma jovem que operei que depois competia com a amiga para ver quem ficava com mais rapazes. Seguiu fazendo terapia e hoje est equilibrada. 

Isto - Como o paciente verifica se est nas mos de um bom cirurgio? 

Thomas Szeg - Primeiro, deve pegar referncias do mdico. Segundo, ir ao hospital em que ele opera para perguntar qual  a estatstica desse mdico. Ou pode ligar para o plano de sade e pedir os resultados dele. 

Isto - Quais so as complicaes mais frequentes no ps-operatrio? 

Thomas Szeg - As alteraes nutricionais esto entre elas. Dependendo da tcnica escolhida, o paciente pode precisar fazer reposio de ferro, clcio, zinco, por exemplo. Do ponto de vista cirrgico, a complicao mais comum  o sangramento nos pontos onde o tecido  religado.  

Isto -H pacientes que perdem cabelo?

Thomas Szeg -  algo frequente do terceiro ao sexto ms aps o procedimento. Mas no  uma queda,  uma troca. Por isso o paciente deve ser bem informado sobre tudo o que vai acontecer com ele antes e depois da operao. Por exemplo, que ter de fazer o acompanhamento mdico a longo prazo. No damos alta para o paciente. Peo que volte a cada sete dias, depois a cada ms, dois, trs e depois semestralmente. Aps o quinto ano, se ele est muito equilibrado, deixo uma consulta por ano.  

